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segunda-feira, 21 de junho de 2010

Pediatras e psiquiatras se unem para cuidar da saúde mental de crianças de 0 a 6 anos

Do nascimento à adolescência, a criança terá no mínimo 20 consultas com o pediatra, para avaliar sua saúde física e prevenir doenças. Já a saúde mental só será percebida se virar um problema para pais e mães, a maioria refém do modo de vida contemporâneo, em que predominam o estresse, as muitas horas fora de casa, as dificuldades para impor limites e, muitas vezes, a terceirização da educação a babás e escola. 
Os reflexos da modernidade e da competitividade incidem sobre os filhos. No corre-corre da rotina, são cada vez mais cedo submetidos a provas rígidas, precisam dar conta de grande quantidade de deveres de casa, têm menos tempo para brincar e muitas vezes isolam-se em frente a telas de TV, videogames, computadores.
Mas algumas mudanças já podem ser vislumbradas nesse cenário. Até o fim do ano, a Sociedade Brasileira de Pediatria, atendendo a um pleito antigo de psiquiatras da área infantil, começará a capacitar os pediatras para que eles identifiquem também a quantas anda a saúde mental da criança. Um dos objetivos é diagnosticar precocemente problemas graves, como o autismo, para o tratamento ser iniciado imediatamente. Mas o desafio não se restringe às patologias: o pediatra também será fundamental para perceber comportamentos inadequados e dificuldades dos pequenos, como agressividade, problemas de aprendizagem, ansiedade e medos. E poderão passar a bola para o psiquiatra orientar a família no tratamento.
-- É muito importante acompanhar as crianças entre 0 e 6 anos, para percebermos os sinais de alerta. Muitas vezes, a criança está só passando por uma fase mais difícil porque vai ganhar um irmãozinho e orientamos a família a ajudá-la. Outras vezes, há uma dificuldade simples que a impede de avançar na escola e ninguém percebe. E há também casos mais graves, como Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e autismo. O bacana é que todas essas crianças que vão ao ambulatório são acompanhadas até os 15, 16 anos - diz a psiquiatra Gabriela Dias, coordenadora do Ambulatório Pré-Escolar da Santa Casa, autora junto com o marido e psiquiatra Fabio Barbirato, chefe do Setor de Psiquiatria Infanto-Juvenil da Santa Casa, de "A mente de seu filho" (Agir), um guia para a família estimular as crianças e identificar distúrbios psicológicos na infância.
Ansiedade atinge crianças pequenas
O.K., saúde mental é importantíssima, mas será que crianças tão novas precisam realmente de um acompanhamento? Segundo Barbirato e Gabriela, sim. Primeiro, porque nesta fase, até os 6 anos, é possível prevenir problemas mais graves no futuro, só com a terapia familiar e orientações simples, e evitar que um probleminha vire um problemão. E depois porque pesquisas internacionais, como a coordenada pela psiquiatra americana Hellen Egger, mostram que cerca de 10% das crianças entre 0 e 6 anos têm algum transtorno psiquiátrico grave, que causa grande comprometimento em suas vidas.
- Pouco se falava de ansiedade e depressão na infância e hoje já sabemos que 10% das crianças sofrem do problema. É duas vezes mais frequente na infância que TDAH e autismo. E, segundo a Organização Mundial de Saúde, ansiedade e depressão são muito mais incapacitantes na vida $do que qualquer outra doença - explica Barbirato.
Mas aquela criança agitada, ansiosa, ligeiramente estressada se enquadra nesses 10%?
- Não - garante Gabriela. - Nesses 10% é quando ocorre o comprometimento: a criança que não quer mais ir à escola, sair de casa, ver amigos.
Jéssica, de 9 anos, paciente da Santa Casa, faz parte dessa porcentagem. Diagnosticada com Transtorno de Ansiedade Generalizada, ela é tratada com terapia:
- Eu sou muito ansiosa, perco o sono, tenho bruxismo. Estudo, sei a matéria, mas sempre acho que vou me dar mal na prova. E fico estudando mais e mais.
Vitoria, de 9 anos, de olhar sério e poucos sorrisos, sente um enorme complexo de inferioridade, como definiu sua tia, apesar de muito inteligente. É super-responsável, preocupada ao extremo, e agora acha que tem poucos amigos na escola.
- Eu tinha algumas amigas, elas arrumaram novas e eu fiquei sobrando. Agora estou me esforçando para fazer outras amizades - conta.
Dados epidemiológicos apresentados no Congresso da Academia Americana de Psiquiatria da Infância e Adolescência em 2007 mostram que os transtornos de ansiedade são os mais comuns na fase pré-escolar, seguidos por transtorno opositivo-desafiador, TDAH e depressão.
- Mas o foco principal do ambulatório pré-escolar e desse trabalho integrado com os pediatras não é a doença. Queremos, sim, identificar logo alterações de temperamento, reconhecer aquele que é mais introspectivo, o mais agressivo, os problemas de convivência em grupo, as dificuldades de cognição, a birra frequente, os comportamentos inadequados, para ajudar a família. O tratamento consiste basicamente na orientação aos pais. Temos que ouvir a família e saber que nela está a chave da mudança - destaca Barbirato.
Para o presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, Eduardo Vaz, é o pediatra quem entende de desenvolvimento infantil e daí a importância da parceria com o psiquiatra. As etapas do desenvolvimento cognitivo e físico são muito individuais e compreendem uma faixa etária extensa, mas alguns marcos - como uma criança de 1 ano e meio não estar falando nada - não podem ser desprezados. E compreender essas etapas, serviço que o livro de Barbirato e Gabriela destrincha para os pais, ajuda tanto a não minimizar os diagnósticos como também a não maximizá-los.
- O desenvolvimento do cérebro é muito importante até os 6 anos, mas principalmente até os 3. Quem não recebe afeto nos primeiros anos de vida dificilmente vai gostar do outro. O pediatra precisa entender a dinâmica da família. Temos 35 mil pediatras no Brasil. Se eles estiverem treinados para identificar doenças ou problemas de comportamento da criança, tudo pode ficar mais fácil - explica Vaz, que destaca o trabalho do pediatra Ricardo Halpern, presidente do Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento da SBP. - Houve uma mudança grande no estilo de vida dos pais e dos filhos. E há uma busca desenfreada pelo sucesso. Isso gera um impacto sobre a saúde mental das crianças. 

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

REPORTAGEM - ISTO É

N° Edição: 1899
OS SEGREDOS DO AUTISMO



As últimas descobertas sobre o transtorno, que atinge um milhão de pessoas no Brasil


Por Greice Rodrigues



domingo, 17 de janeiro de 2010

LIVRO "A MENTE DO SEU FILHO" - BARBIRATO E DIAS

TRANSTORNOS PSICOLÓGICOS EM CRIANÇAS

Para muitos pais, a simples menção à palavra psiquiatra causa arrepios. Mas, apesar de todo o preconceito que envolve os transtornos mentais, diagnosticá-los ainda na idade pré-escolar e tratá-los com a orientação de um bom profissional é fundamental para evitar problemas mais sérios no futuro 

por Camila Carvas   

fotos Gustavo Arrais


Agrande maioria dos pais conhece os sintomas de uma virose, sabe identificar doenças típicas da infância, como catapora e sarampo, e não pensa duas vezes antes de tapar as tomadas da casa. Mas e quando a criança anda tristonha, não se relaciona bem com os colegas, não sabe esperar a sua vez ou chora desesperadamente se precisa dormir sozinha? Em um primeiro momento, esse tipo de comportamento até parece algo natural da idade. Quando se torna recorrente, no entanto, é preciso ficar alerta: por trás do destempero ou da choradeira sem fim podem estar os primeiros sinais de um transtorno psicológico na infância.

Esse é o assunto do recém-lançado livro A Mente do Seu Filho (Editora Agir), assinado pelos psiquiatras Fábio Barbirato mailto:fabiobarbirato@ig.com.br) e Gabriela Dias. “Nosso objetivo é ajudar pais, professores e até mesmo pediatras a diferenciarem o que é normal e o que não é”, diz Barbirato, que é do Ambulatório Infanto-Juvenil de Psiquiatria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, o primeiro do gênero no país. “Afinal, fala-se muito em saúde física, mas quase nada sobre a mental”, nota ele. Uma pena, sobretudo no caso dos pequenos: quando se identifica uma patologia psicológica logo nos primeiros anos de vida, fica mais fácil prevenir problemas futuros. “Pesquisas provam que boa parcela dos adultos ansiosos ou depressivos tem histórico infantil do transtorno”, revela o especialista.

Só para ter uma ideia, estudos já constataram quadros depressivos em 8% da garotada entre 3 e 5 anos. E estimativas da Organização Mundial da Saúde apontam que, em 2020, a depressão, muitas vezes originada na tenra infância, será a segunda causa de incapacitação médica no planeta. Nos adultos, ela compromete o desempenho profissional e social, deflagra prejuízos na comunicação, leva ao abuso de drogas e até a suicídios. Portanto, fica fácil perceber os benefícios do diagnóstico precoce.

Entre os transtornos mais comuns na infância estão os de ansiedade, de humor, de déficit de atenção e hiperatividade e os globais do desenvolvimento, como o autismo. “Aliás, no ambulatório, vemos uma porcentagem grande de casos de autismo”, conta Barbirato. Hiperativos aparecem em segundo lugar e os demais distúrbios vêm logo em seguida. A dificuldade para identifi cá-los reside no fato de que os sintomas, muitas vezes, são superficiais e camuflados. “A criança sente dor, vomita, tem febre e lesões dermatológicas”, relata o psiquiatra. Somente depois de uma avaliação detalhada é que finalmente se conclui que as emoções são as responsáveis pela situação. Por isso é importante que você aprenda a reconhecer os sinais de que algo não vai bem na cabecinha do seu filho.
Transtornos do humor
 As crianças bipolares, que alternam períodos de depressão e episódios de mania, costumam apresentar um comportamento sexual mais exagerado. “Elas se masturbam mais, vivem falando sobre sexo e são o que chamamos de hiperromânticas, ou seja, estão sempre apaixonadas”, descreve Barbirato. Na infância, esse transtorno vem geralmente acompanhado de estados de irritabilidade, explosão e arrogância. Pais e professores devem ficar atentos se os pequenos não param quietos, falam além da conta e acreditam que podem fazer coisas irreais.


No caso da depressão, é importante deixar claro que ela não é sinônimo de tristeza. E está longe de ser algo momentâneo, que passa com o tempo. Às vezes, quando uma pessoa querida ou um animal de estimação morre, ficar triste é até saudável, porque mostra que a afetividade está sendo exercida. Um quadro mais persistente, porém, que geralmente ultrapassa os seis meses e altera, inclusive, a maneira de o pequeno comer e dormir, acende a luz amarela. Aí os pais notam que acaba o interesse e o prazer em atividades antes agradáveis e começam as queixas de dores físicas, de barriga ou de cabeça, sem falar no autoisolamento.



Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade
Mais conhecido como TDAH, é baseado na tríade desatenção, inquietação e impulsividade. Como se espera que toda criança seja, por assim dizer, um pouco peralta, o que distingue o problema de uma reles travessura são os prejuízos que ele provoca. “Quando a criança é mais desatenta do que o restante da turma, e essa situação é persistente, o melhor é procurar um médico”, explica o psiquiatra Enio Andrade, do Ambulatório de TDAH do Hospital das Clínicas de São Paulo. E ser impulsivo, nesse caso, signifi ca não saber esperar a vez, falar sem pensar, atravessar a rua sem olhar para os lados ou não conseguir guardar um segredo, entre outros sintomas.


Transtornos de ansiedade
Pânico, fobias e compulsão obsessiva são apenas algumas das subdivisões da ansiedade. Mas todas estão relacionadas ao medo de problemas futuros. Na infância, o transtorno da ansiedade mais comum é o da separação. “A criança sofre muito cada vez que os pais dão a entender que vão sair”, conta Bernard Rangé, professor do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O pequeno fica apreensivo com o que pode acontecer com o pai e a mãe e, consequentemente, com ele. No caso de TOC, sigla para transtorno obsessivo-compulsivo, o garoto repete uma ação várias vezes e tem ideia fixa por simetria. Em ambos os casos, a terapia cognitiva comportamental ajuda a entender o que causa a perturbação.


Transtornos globais do desenvolvimento
O autismo é uma da formas, e provavelmente a mais conhecida, dos chamados TGD. “Ele é caracterizado por falta de interação social, a criança tende a se isolar. Há atraso e disfunção das habilidades de comunicação e um repertório limitado de atividades e interesses”, explica Ana Margareth Bassols, chefe do Serviço de Psiquiatria da Infância e da Adolescência do Hospital das Clínicas de Porto Alegre. O pequeno em geral gosta de fazer sempre os mesmos programas e assume um comportamento que às vezes parece com o de crianças mais novas.

Os motivos ainda não são conhecidos, mas sabe-se que o autismo afeta de três a cinco vezes mais meninos do que meninas. A observação atenta do desenvolvimento da criança por parte da família, escola e pediatra ajuda bastante na identificação precoce do problema. “Um de seus primeiros sinais é a aversão ao colo”, conta a médica. O bebê autista costuma ser agitado. Brincadeiras muito repetitivas, aversão ao olhar — eles tendem a não olhar o outro enquanto falam — e à aproximação de outras pessoas, que eles parecem nem sequer ouvir, também sinalizam um possível autismo. Não à toa, durante o tratamento procura-se estimular na criança seu lado mais comunicativo e sociável.

O importante é que os pais se lembrem de que, quando se cogita um transtorno mental, fala-se de algo mais grave e já instalado. Em bom português, trata-se de uma situação que requer o acompanhamento de profissionais qualificados para que o diagnóstico e a indicação de um método terapêutico sejam adequados. “Investir em tratamentos sem comprovação cientifica pode retardar a melhora da criança”, pondera Ivete Datar. E isso significa perda de tempo. Um tempo bem precioso, diga-se de passagem.


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