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terça-feira, 6 de abril de 2010

AUTISMO POR TEMPLE GRANDIN


“A realidade para um autista é uma confusa gama de eventos, pessoas, lugares, sons, visões. Não parece haver limites claros, ordem e significado em nada. Grande parte da minha vida é gasta tentando estabelecer rotinas, tempos, rotas particulares e rituais que me ajudam a pôr ordem em uma insuportável vida caótica. Mesmo, às vezes, quando quero participar de algo, meu cérebro simplesmente não me diz como eu deveria agir, e ao contrário do que muitos pensam, é possível para um autista se sentir sozinho e amar alguém.
Se pessoas normais se encontrassem em um planeta com criaturas alienígenas, provavelmente se sentiriam amedrontadas, não saberiam como se comportar e certamente teriam dificuldade de saber o que os alienígenas estavam pensando, sentindo e querendo, e como responder corretamente a estas coisas. É assim que é o autismo. Por isso, tento manter tudo do mesmo jeito, reduz um pouco do terrível medo.

Mesmo quando as coisas não são diretamente aterrorizantes, eu tendo a temer que algo ruim vai acontecer, porque eu não consigo entender o sentido do que eu vejo. A vida social é difícil, porque não parece seguir um padrão. Quando eu começo a pensar que eu comecei a entender uma idéia, de repente essa idéia parece não seguir o mesmo padrão, caso as circunstâncias mudem um pouco.

Parece haver tanto a aprender. Autistas ficam muito brabos, porque a frustração de não serem capazes de entender o mundo apropriadamente é terrível. Aí as pessoas ficam surpresas porque eu fico braba. Foi só há algum tempo atrás, que eu percebi que as pessoas pudessem estar realmente falando comigo, então desde aí eu descobri que também era uma pessoa. E eu era uma pessoa, no mínimo diferente delas.

Quando era bem jovem, eu nunca percebi como eu poderia me relacionar com outras pessoas porque eu não era capaz de diferenciar pessoas de objetos. Então, quando percebi que as pessoas deveriam ser mais importantes que objetos, eu me tornei um pouco mais consciente, as coisas começaram a aparecer sob uma nova e ainda difícil luz”. (Therese Joliffe)
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Autismo é uma inadequação no desenvolvimento, que se manifesta de maneira grave por toda vida. Aparece tipicamente nos 3 primeiros anos de vida. É mais comum em meninos que em meninas. Acomete cerca de 20 a cada 10.000 recém nascidos. É encontrada em famílias de qualquer configuração social, étnica ou racial.
Definição da ASA, Autism society of America.

O autismo faz parte hoje, na literatura internacional da terminologia “transtornos invasivos do desenvolvimento”, que incluem quadros com desordens cognitivas, comportamentais, comunicativas ou de linguagem, e ainda quadros com manifestações psicóticas.

O autismo e os transtornos afins são conceitualizadoscomo síndromes comportamentais biologicamente determinadas e com etiologias variadas. Hoje sabe-se que nada tem a ver com antigas definições de problemas relacionais, onde chegavam-se a chamar as mães de autistas, de mães geladeira. As causas são orgânicas. As dificuldades principais estão nas áreas de cognição, linguagem, motora e social.
No caso dos transtornos invasivos do desenvolvimento, o quanto o diagnóstico for feito o mais precocemente, melhor o prognóstico. E muitas vezes melhoram esse prognóstico, se a criança, desde 2/3 anos, é colocada num programa educacional altamente estruturado. A educação especial é uma das prioridades no tratamento. O objetivo é desenvolver todas as possibilidades dentro das limitações.

Algumas características e sintomas para o reconhecimento da síndrome do autismo:
Desajustes na interação social
Indiferença diante de outros. Dificuldades com expressões não verbais tipo: olhar olho no olho, gesticulação, expressão facial; expressão de sentimentos, reciprocidade social ou afetiva. Incapacidade ou pouca capacidade para prever eventos ou comportamento de outros.

Desajustes na comunicação
Retardo ou não aquisição da fala. Dificuldade de diálogo, independente da dificuldade da linguagem. Uso de linguagem estereotipada ou peculiar (ecolalia e outras). Falta de imaginação espontânea ou imitação de comportamentos sociais.
Desajustes de comportamento
Compulsão por rituais ou rotinas não funcionais. Maneirismos motores. Pouca ou nenhuma noção de perigo. Comportamento mecânico. Distúrbios na alimentação (ausência de mastigação, predileções estranhas ou ingestão acentuada de líquidos). Oscilações de humor. Ocorrência de convulsões. Agressividade ou auto-agressividade.
Desajustes na motricidade, na orientação espacial e funções autônomas
Hipo ou hiperatividade. Moderada ou leve defasagem na coordenação de movimentos. Sono irregular.
Desajustes cognitivos
Reações de hiper ou hipo sensibilidade à estímulos sonoros, visuais, táteis, olfativas, gustativos ou térmicos. Pouca ou nenhuma capacidade de simbolizar.

Uma grande parte de autistas é portadora também de deficiência mental que varia de grau, leve a moderado e profundo.
Há também os autistas de alto funcionamento, aqueles que possuem habilidades especiais voltadas para a arte ou a música ou matemática ou orientação espacial...

Pessoas com transtornos invasivos do comportamento tem um estilo cognitivo próprio. Ouvem, sentem , vêem mas o seu cérebro processa informações de um modo diferente.

É necessário adicionar significado ao comportamento social para elas possam entendê-lo. A habilidade para compreender os comportamentos sociais está inserida em nosso cérebro, e a maioria das pessoas com deficiência tem sua intuição social relativamente intacta. Crianças autistas podem não ter o talento de ir além da informação pura. Nascemos biologicamente programados para adicionar um significado nas percepções com um mínimo de estimulação. Graças a isso, entendemos a comunicação entre as pessoas, o comportamento humano e nos adequamos de maneira socialmente aceitável. Esta capacidade não está totalmente ausente no autista, mas está desorganizada.

Se uma criança chora, de certa forma ela está comunicando uma emoção, mas não é o mesmo de comunicar o que a está chateando. Ela precisa de ajuda para sair deste comportamento pré comunicativo para uma real comunicação.
Uma criança não pode se comunicar com palavras, não significa que ela não queira, significa apenas que as palavras estão sendo muito difíceis. Deve-se tentar outros meios de comunicação. Uma criança não pode desejar o que ela ainda não entende.

Até mesmo para aquelas que adquiriram a linguagem são difíceis regras sociais como conversar, sobre o que, quanto tempo falar sobre algo que lhe interessa.
A grande dificuldade é entender o mundo no seu sentido literal, onde cada coisa pode significar tantas coisas.
O mundo é cheio de incertezas. vivemos indecisões, angústias, ansiedades. Usamos a organização do tempo para nos estruturarmos, criando prioridades, metas e previsões para hoje, amanhã, depois.

Para um autista, que vive de certa forma em estado de ansiedade, pois não tem a capacidade de prever eventos é fundamental que possamos dar a eles um ambiente organizado, o mais previsível possível, para que possa se desenvolver.
Definir espaços, instituir rotinas, instituir tarefas com início, meio e fim são fundamentais para a diminuição da ansiedade, do medo, e o desenvolvimento da concentração, motivação e aprendizagem. Importante que o autista saiba o lugar de seu prato, de sua colher, de seu uniforme da escola, de seu CD favorito...

Temos que tornar compreensível o tempo, concreta a ordem e a duração dos eventos, usando relógios ou temporizadores visuais. Assim muitas vezes estaremos evitando uma crise. Se por exemplo vamos levá-lo para passear é importante ser informado antes. Uma boa dica é que essa informação seja dada através de cartão, com a foto, ou o símbolo do local que vai. Como eles tem o pensamento visual, fica mais fácil a compreensão. A linguagem deve ser também usada, mais palavras simples e objetivas. A duração do passeio pode ser indicada por sinal de relógio (despertador) ou um evento que marque a volta para casa, um lanche por exemplo. O meio de transporte pode ser também indicado e devemos evitar ambientes com muitos estímulos, a não ser que esteja sendo trabalhado neste sentido.

É lógico que não vamos conseguir colocar nossos autistas numa redoma e manter previsível o tempo todo o seu ambiente. Mas o quanto mais estruturarmos o que está a sua volta mas ele conseguirá suportar suas variações sem maiores problemas.
A escola neste contexto é de fundamental importância para o desenvolvimento das habilidades comunicativas, sociais, de vida diária, cuidados com a higiene que devem estar inseridos num programa de aprendizagem.

Uma vez o diagnóstico feito, temos que ter em mente que nenhum autista, apesar de algumas disfunções comuns, é igual a outro autista. Somos seres humanos diferentes, com nossos potenciais e limitações. Portanto há sempre um trabalho a ser feito. Há sempre algo a ser alcançado dentro de qualquer limitação.

“Não quero que meus pensamentos morram comigo. Quero ter realizado algo. Não me interesso pelo poder ou pilhas de dinheiro. Quero deixar algo. Quero dar uma contribuição positiva. Saber que minha vida tem um sentido. Exatamente agora, estou falando de coisas que estão no âmago de minha existência”.
Temple Grandin - Autista
PHD em ciência animal e professora na Colorado State University
Em um trecho do livro “Um antropólogo em Marte” de Oliver Sacks

PROBLEMAS DE COMPORTAMENTO ?

Dicas compiladas por Mônica Accioly   baseada nas fontes citadas. Ótima dica de texto!
Um grande abraço,
 
Os pais das crianças com autismo geralmente são responsabilizados pelos “ataques de birra” de seus filhos. As pessoas não entendem as reações das crianças e culpam os pais por não “darem limites” a seus filhos.

Como estamos acostumados a manter o controle nos ambientes que freqüentamos, ninguém imagina como o cérebro de uma criança pode entrar em “sobrecarga” (palavra muito usada pelos próprios autistas para descreverem o que sentem). Elas freqüentemente não conseguem filtrar os estímulos que as cercam (auditivos, visuais e táteis) e sentem como se todos os atingissem ao mesmo tempo, com a mesma intensidade.

Para nós, a adaptação e a “filtragem” dos estímulos é automática. Escolhemos aquele estímulo que mais nos interessa numa situação (a voz de uma pessoa, por exemplo) e, automaticamente, os outros ficam em segundo plano. No autismo não é assim. A criança não consegue fazer isso automaticamente. O seu cérebro fica confuso devido a entrada de vários estímulos ao mesmo tempo e ocorre a sobrecarga.

Muitos dos problemas de comportamento apresentados por essas crianças, deve-se a um colapso no controle dessa filtragem de estímulos. Portanto, quando seu filho tiver uma “crise de birra”, primeiramente observe:

1 - Avalie a situação em que ocorre o problema de comportamento. Lembre-se dos diversos estímulos (excesso de luzes, sons, vozes, multidão, toque, mudanças na rotina, imprevistos, situações novas ou desagradáveis, etc) que “sobrecarregam” os sistemas sensoriais da criança com autismo.

2 – Quando as crianças têm um sorriso no rosto, podem cooperar e prestar atenção. Mas quando estão cansados, confusos, frustrados, ansiosos, podem entrar em devastadora “sobrecarga de sensações”.

3 – A maioria das crianças “sinaliza” sua ansiedade de alguma forma. Talvez se torna agitada e, neste caso, essa agitação deve ser interpretada como comunicação : “Salve-me antes que eu perca o controle”.

4 – A dificuldade em comunicar algo ou pedir ajuda pode levar a um estado de frustração.

5 – Eles não gostam de perder o controle. Essas reações não são planejadas, são reações, isto é, a criança reage a algo que a incomoda ao extremo. Ao extremo dela perder o controle!

6 – Quem mais sofre nestas situações é a própria criança. Para ela, é difícil “voltar” depois que ultrapassou o próprio limite de “sobrecarga”.

7 – Você pode ajudar a criança a “voltar”.
 
PARA EVITAR QUE AS CRISES DE BIRRA OCORRAM, LEMBRE-SE :

A – A criança com autismo pode não generalizar uma regra. Talvez ela se comporte em casa mas não na escola, ou ao contrário. Pode aprender a se comportar numa situação, num determinado ambiente, mas para se comportar num outro ambiente, vai ter que aprender
novamente. Cada vez é a primeira vez. É preciso sempre lembrá-la de como deve se comportar.

B – Quando a criança fica sem ter o que fazer, podem ocorrer os movimentos de auto-estimulação ( que também os ajudam a lidar com uma situação nova ). Nestas ocasiões você pode oferecer a ela algo que seja mais interessante. Mas a família deve procurar preencher o tempo da criança de maneira sistemática ( usar figuras sobre a rotina diária pode ajudar).

C – Situações novas ou inesperadas também causam ansiedade. . Prepare sempre o seu filho para o que vai acontecer. Ele vai ficar mais calmo. Se você usar figuras, vai ser mais fácil ele entender, principalmente se ele perceber que depois de uma situação difícil (ida ao médico ou a o dentista, por exemplo), ele vai poder descansar ou fazer algo que gosta.

D – Criticar , provocar, insistir que uma recusa da criança é “bobagem”, é contra-produtivo e piora as coisas. Respeite os limites do seu filho. Lembre-se de que você pode estar forçando limites de tolerância sensoriais ou emocionais. Ele pode, sim, se acostumar a algumas situações que a princípio são difíceis para ele, mas para isso precisará de tempo e paciência.

CASO AS CRISES OCORRAM :
  • Seu filho não sabe o que fazer para “voltar” (lembra-se que ele perdeu o controle?) nem o que fazer para se corrigir.


  • Ele precisa que você não perca o controle! 
  • Ajude-o falando baixo, com voz suave e calma, repetindo uma palavra que ele entenda, cantarolando uma música que ele goste, ou descrevendo seu lugar predileto.
    Se ele estiver, por exemplo, batendo a cabeça contra a parede, diga “parado” e repita várias vezes com voz tranqüila, ajudando-o , gentilmente, a parar o movimento (apenas se ele é uma criança que aceita bem ser tocado). Se ele estiver gritando, diga “calado” ou “feche a boca”. Se estiver batendo em alguém ou nele mesmo, você pode dizer “mãos prá baixo”.
    Você ainda pode ajudar falando das coisas que ele gosta de fazer, por exemplo, “balanço” ou “praia” . Músicas também ajudam. Mas não esqueça de falar devagar, baixo e manter sua tranqüilidade. Com o tempo, você vai ver que ele vai fazer isso sozinho.
    Outra opção é dar a ele um ritmo. Se ele às vezes usa um movimento repetitivo qualquer para se acalmar, você pode tentar tocar levemente em seu ombro, em toques repetitivos e ritmados. O ritmo conhecido é seguro e calmante.

  • Lembre-se que o seu filho não entende porquê você fica “zangado” e, se for tratado com agressividade, REFLETIRÁ (como num espelho) essa atitude. Ele percebe melhor as emoções do que as palavras ou ações dos outros. Quanto mais você “zangar’ com ele, mais seu comportamento se tornará difícil. Portanto, é importante amá-lo quando falar com ele.

  • Finalmente : As crianças com autismo são antes de tudo ... crianças! E haverá momentos em que estarão tendo comportamentos característicos da idade ou do seu temperamento. Nestes momentos o “velho” castigo funciona bem, desde que a criança entenda o que está acontecendo. Se não, será inútil. Cabe então aos pais analisarem cada situação (em caso de dúvida, volte ao ítem 1).

Abaixo, trechos extraídos e traduzidos do livro “Somebody Somewhere” de autoria de Donna Williams (autista, formação universitária) que ilustram e explicam os transtornos causados pelo distúrbio sensorial, o que ela mesma chama de “inferno sensorial”:

“Dentro do meu armário escuro, os tecidos balançavam na minha frente. A segurança da minha querida escuridão. Ali, o bombardeamento das luzes e das cores berrantes, os movimentos e o blá-blá-blá , o barulho imprevisível e o toque incontrolável das pessoas, não existiam. Ali era um mundo seguro, onde as coisas estariam sob controle até que eu tivesse me acalmado o suficiente para pensar ou sentir algo. Eu tocava o tecido na minha frente, corria minha mão sobre a superfície sedosa dos sapatos de couro aos meus pés. Eu os pegava e passava no meu rosto. Ali, não havia a última gota que me levaria da sobrecarga ao fechamento.”

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“ A menininha gritava e se balançava , com os braços prá cima tampando os ouvidos para manter os ruídos distantes, e com os olhos cruzados para bloquear o bombardeamento dos ruídos visuais. Eu olhava aquelas pessoas e desejava que soubessem o significado de inferno sensorial.”
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“Ela prendeu a respiração, começou a ranger os dentes ritmicamente, endureceu como uma rocha, e continuou tentando bater nela própria, mesmo tendo as mãos seguras para baixo.
“Ela tem outra coisa prá comer?” perguntei. “Ela trouxe sanduiche”, disse a auxiliar, “mas não sabe comer sozinha”. “Posso ajudar?” perguntei.
Ficaram agradecidas. As funcionárias se ocuparam das outras crianças ao redor da mesa. Eu sentei num banco ao lado de Jody. O sanduiche dela estava embrulhado em plástico, na sua frente.
Comecei a cantarolar gentilmente. A melodia era curta, rítmica e hipnótica. Eu a repeti muitas e muitas vezes. Jody , junto a mim, fixava o nada. Ela prendia a respiração, se balançava e rangia os dentes.
Permaneci cantarolando até que ela parou de ranger os dentes. Eu continuei, repetindo a melodia muitas e muitas vezes. Comecei a tocar levemente em seu ombro, acompanhando o ritmo da música, que não mudava, sempre contínuo e previsível. Jody parou de se agredir.
As mãos dela estavam agora livres e Jody podia usá-las. Alcançou o sanduiche, rasgou a embalagem e enfiou a cara nele. Jody talvez não fosse muito elegante para comer, mas ao menos estava independente e pode se alimentar sozinha.”
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“Donna, venha dizer oi ao Eric”, disse minha mãe.
Instantaneamente, um fogo me consumiu e minha cabeça foi em direção ao estômago de Eric, enquanto meus pés corriam a toda velocidade a seu encontro . Eu era um trem a vapor de treze anos . Ele saiu da frente no último instante para evitar a cabeçada. Minha cabeça bateu na parede e eu vi estrelas antes de apagar.
“Ela é maluca” explicou minha mãe pela enésima vez.
Eu não podia evitar. Eu havia sentido emoções.”
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“Eu estava exausta de ter minha atenção vagando por todos os objetos luminosos ou coloridos, seguindo todos os padrões e formas, e a vibração do som ressoando nas paredes.
Eu costumava amar tudo isso. Era o que me salvava e me afastava do mundo incompreensível, quando eu já havia desistido de encontrar o sentido de tudo. Meus sentidos então, paravam de me torturar e diminuíam de sobrecarregados para um nível divertido, seguro e hipnóticamente hiper. Este era o lado bonito do autismo. Este era o santuário da prisão.”
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“Eu sentei sobre o meu tapete vermelho, meus braços a minha volta, e esperei pelo impacto. Após vinte e seis anos aprendi que não era a morte que se avizinhava, mas emoções.
Qual? Qual? gritava um impulso mudo dentro de mim. Se ao menos eu pudesse nomear esses monstros , ligá-los aos lugares e rostos de onde eles tinham vindo, eu me libertaria.
O monstro estava de volta.
...
Toda vez era como se fosse para sempre, um tiket só de ida para o inferno. Não havia lembranças de que sempre havia um retorno.
...
Meu corpo tremia como um terremoto, meus dentes se chocavam como o som de uma datilógrafa atacando as teclas de uma máquina de escrever. Cada músculo tão tenso como se fossem espremer toda a vida de dentro de mim. E relaxavam apenas para que eu fosse atacada muitas e muitas vezes por um maremoto. Um grito subiu até minha garganta mas foi estrangulado e explodiu num grito silencioso, interno. Respire, vinha o pensamento a cada intervalo. Eu respirava profundamente, ritmicamente. Eu estava escapando.
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Referências :
Ray’s Autism Page : http://web.syr.edu/~rjkopp/autism.html
Paris’ Place : www.accessin.com.au/~paris/autism/faq1.htm
“Somebody Somewhere” – Donna Willians

terça-feira, 2 de março de 2010

DICAS DE COMO ENSINAR CRIANÇAS E ADULTOS COM AUTISMO

DICAS DE COMO ENSINAR CRIANÇAS E ADULTOS COM AUTISMO
Dicas valiosíssimas para professores de crianças e adultos autistas. Estas dicas formam escritas pela autista mundialmente famosa:
Temple Grandin, Ph.D.
Assistant Professor
Colorado State University
Fort Collins, Co 80523, USA
(Revised: June 2000)

Tradução: Dra. Irene Cristina Lavacchini Ramunno
Revisão: Profª Diva Calles



Bons professores me ajudaram a superar meus limites e vencer o autismo. Com dois anos e meio, fui colocada em uma pré-escola com professores experientes. Desde os meus primeiros anos fui ensinada a ter boas maneiras e a me comportar numa mesa de refeições. Crianças autistas precisam de uma rotina estruturada e de professores que saibam ser firmes, mas gentis.

Dos dois anos e quatro meses a cinco anos, meu dia era totalmente estruturado e eu não tinha permissão para romper este esquema rígido. Eu tinha sessões individuais de fonoaudiologia cinco vezes por semana. Minha mãe contratou uma babá que passava de três a quatro horas por dia brincando e jogando comigo e minha irmã. Ela nos ensinou a praticar, durante as brincadeiras, o ato de ceder a vez ao outro (“turn taking”).

Quando fazíamos um boneco de neve, ela me deixava cuidar da parte de baixo e minha irmã se encarregava da outra. No horário das refeições, todos comíamos juntos e eu não tinha permissão para nenhuma atitude inadequada (do any “stems”). Apenas no período de uma hora de descanso após o almoço, eu era autorizada a voltar ao comportamento autista. A combinação entre pré-escola, fonoaudiologia, atividades lúdicas, refeições com “bons modos” somava mais de quarenta horas por semana, nas quais meu cérebro era mantido conectado ao trabalho.
Muitos portadores de autismo são pensadores visuais. Eu penso através de imagens. Não penso através de linguagem. Todos os meus pensamentos são como videotapes passando em minha imaginação. Minha primeira linguagem são figuras; a segunda são palavras. Substantivos foram as palavras mais fáceis de aprender, pois, na minha mente, eu as podia relacionar a uma figura. Para aprender expressões como “para cima” ou “para baixo”, a professora precisa demonstrá-las à criança. Por exemplo: pega um avião de brinquedo e diz “para cima” enquanto faz o movimento de decolagem e “para baixo”, enquanto faz o movimento de aterrissagem.
Evite instruções verbais longas. Autistas têm dificuldade em lembrar seqüências. Se a criança souber ler, escreva as instruções em um papel. Eu não consigo guardar seqüências. Se eu pedir informações de percursos em um posto de gasolina, só consigo lembrar três etapas da explicação; se a instrução é maior, preciso escrevê-la. Eu também tenho dificuldade para lembrar números de telefones porque eu não consigo montar uma figura em minha cabeça.
Muitas crianças autistas são boas em desenho, arte e programação de computadores. Estes talentos deveriam ser encorajados. Acho que deveria haver muito mais ênfase no desenvolvimento dos talentos destas crianças.
Muitas crianças autistas se fixam num assunto como trens e mapas. A melhor maneira de lidar com estas fixações é usá-las para motivar os trabalhos da escola. Se a criança gosta de trens, use-os para ensinar a ler e para ensinar matemática. Leia um livro sobre trens e faça exercícios de matemática usando trens. Por exemplo: calcule quanto tempo um trem leva para ir de Nova Iorque a Washington.
Use métodos visuais concretos para ensinar conceitos numéricos. Meus pais me deram um brinquedo que me ensinou os números. Consistia de um kit de blocos com diferentes comprimentos e cores para cada número de 1 a 10. Com ele aprendi a somar e subtrair. Para aprender frações, minha professora tinha uma maçã de madeira cortada em quatro partes e uma pêra de madeira cortada ao meio. Com este material, aprendi os conceitos de um quarto e meio.
Eu tinha a pior caligrafia da minha classe. Muitos autistas têm problema de motricidade manual. Caligrafia caprichada é difícil na maioria das vezes e isto pode frustrar muito a criança. Para reduzir esta frustração e ajudar a criança a gostar de escrever, deixe-a digitar no computador. Digitação é geralmente mais fácil.
Algumas crianças aprenderão a ler mais facilmente com o uso de fonemas e outros aprenderão melhor decorando palavras. Eu aprendi com fonemas. Minha mãe me ensinou regras fonéticas e me fazia emitir os sons relacionados às palavras. Crianças com muita ecolalia geralmente aprenderão melhor se forem usados cartões e livros com figuras, para que as palavras sejam associadas a figuras. É importante que se tenha a figura e a palavra impressa no mesmo lado do cartão. Para ensinar substantivos a criança precisa escutar você falar a palavra, ver a figura e a palavra escrita simultaneamente. Por exemplo, para ensinar um verbo: segure um cartão que diz “pular” e você fala “pular” enquanto executa o ato de pular.
Quando eu era criança, doíam nos meus ouvidos os sons altos, como o sino da escola, ou ainda, o barulho do “motorzinho” do dentista alcançando um nervo. Crianças autistas precisam ser protegidas de sons que machucam seus ouvidos. Os sons que causam mais problema são os sinos de escola, sistemas de amplificação eletrônica em áreas públicas, zumbidos de ginásios e os sons de cadeiras raspando no chão. Em muitos casos, as crianças terão maior tolerância aos ruídos se estes forem ligeiramente abafados por panos ou fita adesiva. O barulho de raspar cadeiras pode ser amenizado com o uso de protetores nos pés das cadeiras ou de carpetes. 

Uma criança pode temer uma determinada sala por ter medo de ser atingida pelo ruído da microfonia ocasionada pelo sistema de amplificação eletrônica. O medo de um determinado som pode resultar num comportamento inadequado da criança. Cobrir os ouvidos indica que algum som a está perturbando.
Alguns autistas se incomodam com distrações visuais ou luzes fluorescentes. Eles podem ver o pulsar de 60 ciclos de eletricidade. Para evitar este problema, coloque a carteira / mesa da criança perto da janela e evite a luz fluorescente. Se não puder evitá-la, use lâmpadas novas que pulsam menos.
Alguns autistas hiperativos, que se inquietam a toda hora, ficariam mais calmos se lhes fossem dados para vestir uniformes acolchoados, com certo peso. A sensação de pressão do vestuário ajuda a acalmar o sistema nervoso. Para melhores resultados, a vestimenta deveria ser usada por 20 minutos e então retirada por alguns minutos para prevenir que o sistema nervoso se acostume com ela.
Alguns autistas responderão melhor e terão um melhor contato visual e fala se a professora interagir com eles enquanto estão num balanço ou rolando em uma esteira. O estímulo sensorial do balanço ou a pressão da esteira algumas vezes ajuda a melhorar a fala. O balanço deveria sempre ser uma brincadeira divertida e nunca forçada.
Algumas crianças e adultos podem cantar melhor do que falar. Eles podem responder melhor se as palavras e frases forem cantadas para eles. Algumas crianças com extrema sensibilidade a som, responderão melhor se a professora sussurrar para eles.
Algumas crianças e adultos não-verbais não conseguem, ao mesmo tempo, processar estímulo verbal e visual. Eles são “mono-canal” e não podem ver e ouvir simultaneamente. Não se deve pedir isso a eles. É preciso dar-lhes ou uma tarefa visual ou uma tarefa auditiva. Seus sistemas nervosos imaturos não conseguem processar os estímulos visuais e auditivos concomitantemente.
Em crianças mais velhas e adultos não-verbais, o toque geralmente dá maior sensação de segurança, geralmente mais fácil para eles terem maior percepção, para sentirem. Pode ser ensinado o significado das letras, permitindo que as crianças toquem letras de plástico. Eles podem aprender a rotina diária, sentindo alguns objetos, minutos antes da atividade ser executada. Por exemplo: quinze minutos antes do almoço, dê uma colher para eles segurarem. Deixem que eles segurem um carrinho de brinquedo poucos minutos antes de sair de carro.
Alguns adultos e crianças autistas aprenderiam melhor se o teclado do computador fosse colocado próximo à tela para que pudessem ver simultaneamente o teclado e a tela. Alguns indivíduos têm dificuldade em lembrar se eles têm que olhar para cima após teclar.
Crianças não-verbais terão mais facilidade em associar palavras às figuras se visualizarem a palavra escrita e a figura em um cartão. Alguns não entendem desenhos e, por isto, é recomendável trabalhar-se primeiramente com objetos reais e fotos.
Alguns indivíduos autistas não sabem que a fala é usada para comunicação. O aprendizado da linguagem seria facilitado se exercícios de linguagem promovessem a comunicação. Se o indivíduo pedir uma xícara, dê a xícara a ele. Se pedir um prato quando quer uma xícara, dê o prato a ele. O indivíduo precisa aprender que, quando ele emite palavras, coisas concretas acontecem. É mais fácil para o autista entender que as palavras estão erradas se elas resultarem em objetos incorretos.
Muitos autistas têm dificuldade em usar o mouse do computador. Tente um mouse com dispositivo do tipo “tracking ball” com botões separados para cliques. Autistas com problemas de motricidade manual acham muito difícil segurar o mouse enquanto clicam.
Crianças com dificuldade em entender a fala têm trabalho em diferenciar os sons de consoantes de som forte como “D” em “dog” ou “L” em “log”. Fui ensinada a ouvir estes sons através de enunciados fortes e prolongados dos sons das vogais.
Vários pais me disseram que o uso de legendas na televisão ajudou seus filhos a aprender a ler. A criança era capaz de ler as legendas nas fitas e combinar as palavras escritas com as faladas. Seria útil gravar o programa favorito com legendas em fitas, pois esta pode ser vista, revista e pausada.
Alguns indivíduos autistas não entendem que o mouse movimenta a seta na tela. Eles poderiam aprender melhor se fosse colado um desenho da seta, idêntico ao da tela, em cima do mouse.
Crianças e adultos autistas podem ver o “piscar” (a emissão de sinais) da tela do computador. Eles podem enxergar melhor em laptops e telas planas que “piscam” menos.
Autistas que têm medo de escadas rolantes geralmente têm problemas de processamento visual. Eles têm medo porque não conseguem determinar quando devem entrar e sair da escada. Estes indivíduos também podem não tolerar luzes fluorescentes. Podem ser úteis para eles óculos com filtros coloridos (the irlen colored glasses) (reduzindo a luminosidade que pode machucar os olhos de autistas).
Indivíduos com processamento visual deficiente com freqüência acham mais fácil ler letras impressas na cor preta sobre papel colorido, para diminuir o contraste. Tente papel bege claro, azul claro, cinza ou verde claro. Experimente com cores diferentes. Evite amarelo brilhante que pode incomodar os olhos dos autistas. Também neste caso, podem facilitar a leitura estes mesmos óculos com filtros coloridos.
 
Junho de 2000
Centro de Estudo de Autismo
Aos dois anos, a Dra Temple Grandin foi diagnosticada com autismo. Temple é autora de duas autobiografias: Emergency: Labeled Autistic, Arena Press (1986) (Emergência: Rotulada como Autista) e Thinking in Pictures, Double Day (1995) (Pensando por meio de Figuras). É Professora Associada na Universidade de Colorado, porta-voz internacional sobre Autismo e sobre tratamento humanizado para animais. Proprietária da “Grandin Livestock Systems”, Temple é mundialmente conhecida como designer de instalações para o manejo de gado e outros animais domésticos1.
1 Tipo de curral para vacinação ou para carregar o gado nos caminhões que se assemelha a um caracol, no qual o gado vai andando, sempre em frente, mas em círculo. Assim, sente-se protegido pelas cercas de cada lado, anda tranqüilamente e, quando menos se espera, está no caminhão, sem estresse, de forma mais humanizada.

Esta postagem foi retirada do ótimo blog TAI.

Um grande abraço a todos!!!

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